Nos últimos anos, a relação entre humanos e animais de estimação tem se transformado profundamente. Pets deixaram de ser meros guardiões ou companheiros para se tornarem membros integrantes da família, gerando um intenso debate sobre o termo “mãe de pet”. Essa expressão, que reflete o profundo vínculo afetivo e o cuidado dedicado aos animais, levanta questões complexas sobre o que define a maternidade e como a sociedade percebe os diferentes tipos de cuidado e responsabilidade.
A Humanização dos Pets e o Vínculo Afetivo
A crescente humanização dos animais de estimação é um fenômeno global. Cães e gatos, em particular, são frequentemente tratados como filhos, recebendo atenção, carinho e cuidados que se assemelham aos dedicados a crianças. Esse apego é muitas vezes recíproco, com os animais demonstrando lealdade e afeto incondicionais [1].
Estudos científicos têm explorado a base biológica desse vínculo. Pesquisas indicam que a interação entre humanos e seus cães pode levar à liberação de ocitocina, conhecido como o “hormônio do amor” ou “hormônio do vínculo”, tanto em humanos quanto em animais. Este hormônio está associado ao apego materno e ao cuidado, sugerindo que o olhar entre um tutor e seu pet pode ativar sistemas cerebrais semelhantes aos envolvidos na ligação entre mães e bebês [2] [3] [4].
O Contraponto: A Maternidade Humana e Seus Desafios
Apesar do inegável amor e dedicação dos tutores aos seus pets, o uso do termo “mãe de pet” gera controvérsia, especialmente entre mães de crianças humanas. A principal crítica reside na percepção de que a equiparação pode invisibilizar a complexidade, os desafios e a sobrecarga social inerente à maternidade humana [5] [6].
Mães de crianças argumentam que a responsabilidade de criar e educar um ser humano para a sociedade envolve pressões e julgamentos sociais que não se aplicam aos tutores de pets. Questões como a perda de espaço no mercado de trabalho, a divisão desigual das responsabilidades domésticas e a constante culpa são realidades enfrentadas por muitas mulheres que são mães [5]. A psicóloga Sophia Porto destaca que “se colocamos as relações diferentes sob o mesmo prisma, perdemos a essência de cada uma delas. Os vínculos são distintos” [5].
Tatiane Generali, idealizadora do projeto Mamãe Acolhe, ressalta as diferenças práticas: “A mãe de pet não é pressionada em vários aspectos que a mãe de criança é, especialmente no processo de criação e educação desse ser para a sociedade. Se o cachorro começar a latir, pouquíssimas pessoas vão olhar feio, mas se meu filho começar a chorar ou gritar, já vão taxá-lo de birrento, vão falar que eu não fui boa na hora de impor limites e por aí vai” [5]. Além disso, ela aponta que mães de pet não enfrentam o mesmo tipo de discriminação no mercado de trabalho ou a dificuldade de encontrar suporte para seus animais, em comparação com o que mães de crianças vivenciam [5].
O Reconhecimento Jurídico da Família Multiespécie
Paralelamente ao debate social, o campo jurídico tem avançado no reconhecimento dos animais de estimação como seres sencientes e membros da família. No Brasil, a jurisprudência e a legislação têm se movido para além da visão patrimonialista, que classificava os animais como meros bens. Decisões judiciais e projetos de lei buscam regulamentar a “família multiespécie”, reconhecendo o vínculo afetivo e a necessidade de proteção jurídica para os pets [7] [8] [9].
O Superior Tribunal de Justiça (STJ), por exemplo, já reconheceu a “natureza especial” dos animais de companhia, afastando a aplicação do regime de partilha de bens em casos de divórcio e admitindo o direito de visitas, priorizando o bem-estar do animal [7]. Leis como a Sansão (Lei 14.064/20) e projetos como a Lei Joca (PL 13/24) reforçam a compreensão de que os animais são seres vulneráveis sob tutela, e não apenas objetos [7].
Conclusão
O debate sobre se “mães de pet” também são mães é multifacetado e reflete as mudanças sociais na percepção dos animais de estimação e da própria maternidade. Embora o amor e o cuidado dedicados aos pets sejam inegáveis e cientificamente comprovados em termos de vínculo afetivo, é crucial reconhecer as distinções entre a maternidade humana e a tutela de animais. A maternidade de um ser humano envolve uma dimensão de responsabilidade social, educacional e emocional que, para muitos, não pode ser totalmente equiparada ao cuidado com um animal.
Em vez de uma competição, o diálogo pode focar na valorização de ambos os tipos de vínculo. O reconhecimento do papel dos pets na vida das pessoas não precisa diminuir a importância e os desafios da maternidade humana. Ambos os laços são válidos e significativos, cada um à sua maneira, e merecem respeito e compreensão em suas particularidades.
